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quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Carlos Drummond de Andrade


JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Carlos Drummond de Andrade


Nasceu em Minas Gerais, em uma cidade cuja memória viria a permear parte de sua obra, Itabira. Seus antepassados, tanto do lado materno como paterno, pertencem a famílias de há muito tempo estabelecidas no Brasil.Posteriormente, foi estudar em Belo Horizonte, no Colégio Arnaldo, e em Nova Friburgo com os Jesuítas no Colégio Anchieta. Formado em farmácia, com Emílio Moura e outros companheiros, fundou "A Revista", para divulgar o modernismo no Brasil.

Em 1925, casou-se com Dolores Dutra de Morais, com quem teve sua única filha, Maria Julieta Drummond de Andrade.

No mesmo ano em que publica a primeira obra poética, "Alguma poesia" (1930), o seu poema Sentimental é declamado na conferência "Poesia Moderníssima do Brasil", feita no curso de férias da Faculdade de Letras de Coimbra, pelo professor da Cadeira de Estudos Brasileiros, Dr. Manoel de Souza Pinto, no contexto da política de difusão da literatura brasileira nas Universidades Portuguesas. Durante a maior parte da vida, Drummond foi funcionário público, embora tenha começado a escrever cedo e prosseguindo até seu falecimento.
Quando se diz que Drummond foi o primeiro grande poeta a se afirmar depois das estreias modernistas, não se está querendo dizer que Drummond seja um modernista. De fato herda a liberdade linguística, o verso livre, o metro livre, as temáticas cotidianas.
Mas vai além. "A obra de Drummond alcança — como Fernando Pessoa ou Jorge de Lima,Herberto Helder ou Murilo Mendes — um coeficiente de solidão, que o desprende do próprio solo da História, levando o leitor a uma atitude livre de referências, ou de marcas ideológicas, ou prospectivas", afirma Alfredo Bosi (1994).
Affonso Romano de Sant'ana costuma estabelecer a poesia de Carlos Drummond a partir da dialética "eu x mundo", desdobrando-se em três atitudes:

  1. Eu maior que o mundo — marcada pela poesia irônica
  2. Eu menor que o mundo — marcada pela poesia social
  3. Eu igual ao mundo — abrange a poesia metafísica
Sobre a poesia política, algo incipiente até então, deve-se notar o contexto em que Drummond escreve. A civilização que se forma a partir da Guerra Fria está fortemente amarrada ao neocapitalismo, à tecnocracia, às ditaduras de toda sorte, e ressoou dura e secamente no eu artístico do último Drummond, que volta, com frequência, à aridez desenganada dos primeiros versos: A poesia é incomunicável / Fique quieto no seu canto. / Não ame. Muito a propósito da sua posição política, Drummond diz, curiosamente, na página 82 da sua obra "O Observador no Escritório", Rio de Janeiro, Editora Record, 1985, que "Mietta Santiago, a escritora, expõe-me sua posição filosófica: Do pescoço para baixo sou marxista, porém do pescoço para cima sou espiritualista e creio em Deus."
No final da década de 1980, o erotismo ganha espaço na sua poesia até seu último livro.



Dois poetas. Em pé, Carlos Drummond de Andrade. Sentado, Mário Quintana. Drummond tinha um livro de bronze nas mãos, que foi roubado. As pessoas agora colocam sempre um livro nas mãos do poeta. Na foto, o livro que está com ele é "Diário de um Ladrão", do Jean Genet.)

sábado, 29 de setembro de 2012

Secos & Molhados




Secos Molhados foi um grupo vocal brasileiro da década de 1970 cuja formação clássica consistia de João Ricardo (vocaisviolão e harmônica), Ney Matogrosso (vocais) e Gérson Conrad (vocais e violão).
No começo, as apresentações ousadas, acrescidas de um figurino e uma maquiagem extravagantes, fizeram a banda ganhar imensa notoriedade e reconhecimento, sobretudo por canções como "O Vira", "Sangue Latino", "Assim Assado", "Rosa de Hiroshima", que misturam danças e canções do folclore português como o Vira com críticas à Ditadura Militar e a poesia de Cassiano RicardoVinícius de MoraesOswald de AndradeFernando Pessoa, e João Apolinário, pai de João Ricardo, com um rock pesado inédito no país, o que a fez se tornar um dos maiores fenômenos musicais do Brasil da época e um dos mais aclamados pela crítica nos dias de hoje.
Os Secos &  Molhados estão inscritos em uma categoria privilegiada entre as bandas e músicos que levaram o Brasil da bossa nova à Tropicália e então para o rock brasileiro, um estilo que só floresceu expressivamente nos anos 80. Seus dois álbuns de estréia incorporaram elementos novos à MPB, que vai desde a poesia e o glam rock ao rock progressivo, servindo como fundamental referência para uma geração de bandas underground que não aceitavam a MPB como expressão. O grupo continua a ganhar atenção das novas gerações: em 2007, a Rolling Stone Brasil posicionou o primeiro LP em quinto lugar na sua lista dos 100 maiores discos da música brasileira e em 2008 a Los 250: Essential Albums of All Time Latin Alternative - Rock Ibero americano o colocou na 97ª posição.
No dia 23 de maio de 1973, o grupo entra no estúdio "Prova" para gravar – em sessões de seis horas ao dia, por quinze dias, em quatro canais – seu primeiro disco, que vendeu mais de 300 mil cópias em apenas dois meses, atingindo um milhão de cópias em pouco tempo.


Os Secos Molhados se tornaram um dos maiores fenômenos da música popular brasileira, batendo todos os recordes de vendagens de discos e público. O disco era formado por treze canções que ao ver da crítica, parecem atuais até os dias de hoje. As canções mais executadas foram "Sangue Latino", "O Vira", e "Rosa de Hiroshima". O disco também destaca inúmeras críticas a ditadura militar que estava implantada no Brasil, em canções como o blues alternativo "Primavera nos Dentes" e o rock progressivo "Assim Assado" – esta de forma mais explícita em versos que personificam uma disputa entre socialismo e capitalismo. Até mesmo a capa do disco foi eleita pela Folha de São Paulo como a melhor de todos os tempos de discos brasileiros.
O sucesso do grupo atraiu a atenção da mídia, que convidou-os para várias participações na televisão. As mais relevantes foram os especiais do programa Fantástico, da Rede Globo. Sempre apareciam com maquiagens inusitadas, roupas diferentes sendo uma das primeiras e poucas bandas brasileiras a aderirem ao glam rock.
Em fevereiro de 1974, fizeram um concerto no Maracanãzinho que bateu todos os índices de público jamais visto no Brasil - enquanto o estádio comportava 30 mil pessoas, outras 90 mil ficaram do lado de fora.
Em agosto do mesmo ano, é lançado o segundo disco de estúdio da banda, que tinha em destaque "Flores Astrais", único hit do disco. O lançamento do disco foi pouco antes do fim da formação clássica da banda, que ocorreu por brigas internas entre os membros. Talvez por este motivo o segundo álbum – que veio sem título, e com uma capa preta – não tenha feito tanto sucesso comercial como o primeiro.

Origem: Wikipédia









sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Quanto custa seu tempo?

   
Um menino, com voz tímida e os olhos de admiração, pergunta ao pai,          
 quando este retorna do trabalho:


 - Papai, quanto o Sr. ganha por hora?

   O pai, num gesto severo, responde:

- Escuta aqui meu filho, isto nem a sua mãe sabe. Não amole, estou     cansado!
  
Mas o filho insiste:
- Mas papai, por favor, diga o Sr. ganha quanto por hora?

A reação do pai foi menos severa e respondeu:
- Dez reais por hora.

- Então, papai, o Sr. poderia me emprestar três reais?

O pai, cheio de ira e tratando o filho com brutalidade, respondeu:

- Então essa era a razão de querer saber quanto eu ganho? Vá dormir e não me amole mais, menino aproveitador!

Já era noite, quando o pai começou a pensar no que havia acontecido e sentiu-se culpado. Talvez quem sabe o filho precisasse comprar algo. 

Querendo descarregar sua consciência doída, foi até o quarto do menino e, em voz baixa, perguntou:

- Filho, está dormindo?

- Não, papai! (respondeu sonolento, o garoto);

- Olha, aqui está o dinheiro que pediu, três reais.

- Muito obrigado papai - disse o filho.

Levantou-se, retirou mais sete reais de uma caixinha que estava sob a            
  cama e disse:

- Agora já completei, papai. Tenho dez reais. Poderia me vender uma 
    
    hora de seu precioso tempo?

Tirinhas do Hagar .




domingo, 23 de setembro de 2012

Desiderata




Desiderata

Siga tranqüilamente entre a inquietude e a pressa,
lembrando-se de que há sempre paz no silêncio.
Tanto quanto possível sem humilhar-se,
viva em harmonia com todos que o cercam.
Fale a sua verdade, mansa e claramente.
E ouça  dos outros, mesmo dos insensatos e ignorantes
eles também têm  sua própria história.
Evite as pessoas agressivas e transtornadas
elas afligem o nosso espírito.
Se você se comparar com os outros
Você se tornará presunçoso e magoado
Pois, haverá sempre alguém inferior e
alguém superior  a você.
Você é filho do Universo,irmão das estrelas e árvores.
Você merece estar aqui,e mesmo se você não pode perceber,
a Terra e o Universo vão cumprindo  o seu destino.
Viva intensamente o que já pode realizar
Mantenha-se interessado em seu trabalho,ainda que humilde  
ele  é o que de real existe ao longo de todo o tempo.
Seja cauteloso nos negócios,porque o mundo está cheio de  astúcias.
Mas não caia na descrença a virtude existirá sempre
Muita gente luta por altos ideais
E em toda parte a vida está cheia de heroísmo
Seja você mesmoPrincipalmente não simule afeição
E não seja descrente do amor
Porque mesmo diante de tanta aridez e desencanto
Ele é tão perene como a relva.
Aceite, com carinho, o conselho dos mais velhos
Mais também seja compreensivo aos
impulsos inovadores da juventude.
Alimente a força do espírito que o protegera no infortúnio inesperado
Mas não se desespere com perigos imaginários:
muitos temores nascem do cansaço e da solidão.
E a despeito de uma disciplina rigorosa
Seja gentil para consigo mesmo
Você é filho do universo, irmão das estrelas e árvores,
você merece estar aqui e, mesmo se você não pode perceber, a terra e o
universo vão cumprindo o seu destino.
Portanto esteja em Paz com Deus
Como quer que você o conceba
E quaisquer que seja seus trabalhos e aspirações
Na fatigante jornada pela vida
Mantenha-se em paz com sua própria alma
Acima da falsidade dos desencantos e agruras
O mundo ainda é bonito
Seja Prudente
Faça tudo para Ser Feliz
Você é filho do universo, irmão das estrelas e árvores,
você merece estar aqui.

"Desiderata", poema de Max Ehrmann - 1927


Desiderata foi uma princesa do reino da Lombardia, tendo sido a segunda esposa de Carlos Magno com quem casou em 770 . Foi filha de Desidério, o último rei dos Lombardos.